MILAGRE COISA NENHUMA
Distorcer, porque o real foi torcido. Sim, a multiplicação de pães e peixes é mesmo o ponto fulcral a ser distorcido. A matéria que se diz multiplicada, na realidade, não sofreu alteração, senão no aspecto de quem a possuía, de quem a trazia consigo; num momento, ela era de cada um, individualmente. Cada um como dono de seu. Todos só pensando em si. Jesus inverte essa lógica. A matéria há de ser coletiva; racionalizada. A turba, desorganizada, ao comando de Jesus, se organizou a partir de uma simples ordem. Todos deviam se assentar, sobre a relva que ali havia. Assim, organizados em grupos. E se o texto bíblico distorce para que a propriedade de cinco pães e de dois peixes fosse apenas de e para um dos presentes, torna-se compreensível que cada um tinha alguma coisa de si. Então, o que a desorganização refletia a escassez, a organização elevava a um nível coletivo confortável, tanto quanto o que se tinha no seio dos judeus e dos romanos em suas organizações, mesmo em se tratando uns, como dominantes, e outros, como dominados. O signo religioso de quem lhe favorecia a condição milagrosa torceu a verdade do fato: não foi milagre o que o texto narrou. Apenas a distorção vem lhe rendendo favores no curso do tempo e das tantas circunstâncias.



